Trazendo à tona mais uma reflexão de pronunciada relevância para a cultura geral dos povos, visando à valorização do indelével e mais importante patrimônio da humanidade, o conhecimento, proponho uma reflexão coletiva – não necessariamente profunda – a respeito do vocábulo “opa”.
De saída, introduzo meu juízo de valor: o termo é mágico! Sim, é um recurso eficientíssimo de expressão verbal de que dispõe a oralidade contemporânea brasileira. Por quê? Digo-lhe logo. Você já viu uma palavra resumir tanta informação e sentimento em apenas três letras? Ela pode ser utilizada em virtualmente qualquer situação!
Por exemplo, você acorda numa segunda-feira fria, levanta-se e procura seus chinelos (você não é burguês e não dorme de meias!), que, percebe, não estão em frente à sua cama, como de costume. Você diz: “- Opa!” Logo repara, então, que foram parar debaixo da cama, graças a um pontapé distraído e sonolento da noite da véspera. Pois bem, lava o rosto, toma o café, troca de roupa, pega o carro e o trânsito (subentende-se, por elipse, caótico) e chega ao trabalho. Não se passam nem os minutos suficientes para aquecer sua cadeira, recebe um telefonema. Atende. É o chefe: “- Bom dia! [não propriamente bom] Já está pronto o relatório sobre o cliente especial que pedi na quinta?” [Às seis e meia da tarde, antecedendo o feriado prolongado]. Você responde: “- Opa! Como não?” E arrola, em seguida, uma miríade de ressalvas (desculpas) para justificar a precariedade do relatório feito às pressas.
Hora do almoço: passado o fim de semana, você vai fingir que esqueceu que deglutiu praticamente um boi inteiro à companhia dos seus amigos e dos engradados de cerveja no domingo, e vai poder finalmente retomar o regime que planejara. Lê o “menu” do dia: bisteca ao alho-poró, torresminho, tutu de feijão e doce de abóbora para arrematar. Reage: “- Opa! Acho que terça-feira é um ótimo dia pra se começar um regime…”
Findo o expediente e vencido o trânsito – inacreditavelmente, ainda mais caótico que de manhã – você chega em casa. O porteiro abre o portão do prédio, você titubeia entre um aceno e um “boa noite”, prefere o: “- Opa!”. Entra no elevador, encontra o vizinho delegado. Incontrolavelmente, vem à sua mente a última vez que viu sua filha mais nova chegar da balada bêbada com mais três amigas às oito horas da manhã e te oferecendo um resto de “ice” com marca de batom. Você respira, desiste do tradicional “esfriou hoje, né?” e desfere um brevíssimo: “- Opa!”.
Você entra em casa, senta no sempre prazerosíssimo sofá predileto, abre as correspondências, malas diretas, contas e coisas afins e estica o braço para ligar a TV no noticiário padrão. O toque do telefone o interrompe. Você atende e ouve o seu nome naquela voz doce e cadenciada que fazia tempos não ouvia, mas nunca esquecera. É a Mara, sua ex-namorada, interando-o de que acabara de se separar e possuía um Côtes du Rhone Safra 2004 cheio e uma cama vazia. Você solta, sem hesitar, o derradeiro: “- Opa!”.
Nestes poucos mas elucidativos exemplos, você pôde ter uma idéia do fantástico repertório de situações em que um “opa” pode lhe ser muito útil. Por essas e por outras que advogo o uso deliberado do recurso em análise. Espero ter contribuído para o desenvolvimento da língua portuguesa.
Nota: Evidentemente, concorrem com o “opa” algumas outras palavras de competentíssimo calibre multifuncional, mas estas invariavelmente pertencem a um grupo (talvez injustamente) considerado menos nobre do nosso universo lexical, o chamado baixo calão. Desta forma, saem em desvantagem no confronto direto.